ESCOLA SECUNDÁRIA DE ALBERTO SAMPAIO

Notas de Apoio à Disciplina de Sociologia

 

1.3. O fenómeno social total e a interdisciplinaridade

Interdisciplinaridade

As ciências sociais e o fenómeno social total

 

 

Interdisciplinaridade

A interdisciplinaridade, nas Ciências Sociais, significa o intercâmbio de saberes com vista à complementaridade do conhecimento, para melhor explicar os fenómenos sociais na sua totalidade.

0 real social é pluridimensional e, por isso, susceptível de ser abordado de diferentes maneiras pelas diversas Ciências Sociais. Estas mantêm entre si relações de interdependência na abordagem aos fenómenos sociais. As diferentes ciên­cias analisam as mesmas realidades, os mesmos fenómenos "sociais totais", embora privile­giando cada uma delas uma perspectiva própria de análise. Este intercâmbio entre disciplinas leva a que as investigações realizadas numa disciplina qualquer possam ser fundamentais para outra. "Assim, é precisamente a mesma realidade humana e social que vai interessar às diversas Ciências Sociais [...]. Temos, portanto, que o social é único; as maneiras de o abordar, as dimensões a privilegiar é que variam consoante os interesses que orientam e a partir dos quais se situa o investigador em Ciências Sociais, com a sua específica abordagem da realidade social [...]" (Marques, 1987: 97‑99).

0 conceito de fenómeno social total significa que, ao pretendermos estudar um determinado fenómeno social, devemos considerá‑lo na sua multiplicidade de aspectos e procurar várias perspectivas de análise que possam contribuir para uma melhor compreensão do fenómeno. Este não se restringe à sua instância social, poderá ter implicações de vária ordem, aos níveis econó­mico, político, ideológico, demográfico, etc.

As várias facetas dos fenómenos sociais referem um intercâmbio entre as várias disciplinas que mantêm entre si múltiplas relações de interdependência. O conhecimento dos fenómenos sociais só se constrói mediante a complementaridade de perspectivas, pois só deste modo o objecto de estudo em questão poderá ser compreendido e explicado na sua globalidade e complexidade intrínsecas.

Uma política de coordenação deveria manter os diversos especialistas à escuta uns dos outros, para que o seu trabalho particular convergisse para a explicação do todo social.

Paula Gamelas (2002), Interdisciplinaridade in Dicionário de Sociologia,  Porto Editora, p.213.    

 

As ciências sociais e o fenómeno social total

Convém lembrar que há uma concepção errónea mas persistente, segundo a qual as ciências sociais estudariam realidades distintas, ou sectores distintos, compartimentados, da realidade — as diferenças analíticas proviriam de diferenças entre objectos reais. Tal concepção há muito que vem sendo ultrapassada pelos especialistas. Já no século XIX, um Comte ou um Marx alertavam para que, por exemplo, os fenómenos económicos são também sociais e políticos. Porém, a contribuição sistemática mais relevante, aquela a que hoje recorremos, pertenceu, na década de 1920-30, a Marcel Mauss.

Com o conceito de "fenómeno social total", ele estabeleceu dois princípios. Qualquer facto, quer ocorra em sociedades arcaicas quer em modernas, é sempre complexo e pluridimensional; pode, pois, ser apreendido a partir de ângulos distintos, acentuando cada um destes apenas certas dimensões. Todo o comportamento remete para e só se toma compreensível dentro de uma totalidade, quer dizer: constelações compósitas de recursos, representações, acções e instituições sociais intervêm nas mais elementares relações entre pessoas.

A economia, a psicologia ou a sociologia distinguem-se, não porque na realidade haja factos exclusivamente económicos, psicológicos ou sociológicos, mas porque partem de perspectivas teóricas distintas e constroem distintos objectos científicos (os quais, como já vimos, são sempre de natureza abstracto-formal, embora mais ou menos especificados). Não se nega que algumas disciplinas tendam a privilegiar domínios reais diversos — as sociedades que os historiadores e os antropólogos mais estudam são realmente diferentes das que a generalidade dos sociólogos têm focado. Mas isso é secundário em relação ao vector principal de diferenciação — que é de ordem conceptual, que radica na diversidade das ópticas de análise seguidas.

É capital perceber que o económico, o político ou o simbólico não constituem compartimentos estanques — são dimensões inerentes a toda a acção social, estão nela profundamente interligadas. Se designamos certas formas de conduta por económicas, outras por políticas, outras por simbólicas, não é porque umas sejam na realidade exclusivamente económicas, outras políticas e outras simbólicas — pelo contrário, a acção humana, tomada na sua intrínseca complexidade, é ao mesmo tempo económica, política e simbólica; se designamos, pois, certas formas de conduta por económicas, fazemo-lo em virtude de uma classificação/selecção intelectual nossa, a qual privilegia certas dimensões, certos aspectos, em detrimento dos restantes, em função da perspectiva que adoptamos (e que tem, no caso, correspondência na grelha analítica própria da ciência económica).

Só assim compreendemos porque são tão precárias e flutuantes as fronteiras entre várias disciplinas — falando em termos gerais, elas perspectivam, de diferentes maneiras, a mesma realidade; e é precisamente por esta ser muito complexa que se faz mister, para torná-la inteligível, multiplicar (e cruzar) prismas, princípios e instrumentos teórico-metodológicos.

Torna-se agora necessário esclarecer que a palavra "perspectiva" é aqui usada em sentido amplo. Dizer que cada ciência social perspectiva de forma específica a realidade e por isso se distingue das demais é dizer que cada ciência, pelo menos tendencialmente: a) elabora o seu próprio conjunto articulado de questões — a sua problemática teórica — e define o seu objecto científico; b) determina um certo número de problemas de investigação centrais no contexto dessa problemática; c) constrói conjuntos de princípios, teorias, estratégias metódicas e resultados cruciais que servem de modelo ou quadro orientador às pesquisas produzidas na sua área — os paradigmas.

 

Silva, A. e Pinto, J. (2001). Uma visão global sobre as ciências sociais. In Silva, A. e Pinto, J. (Orgs). Metodologia das ciências sociais, 11.ª ed. Porto: Edições Afrontamento, pp. 17-18.

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