ESCOLA SECUNDÁRIA DE ALBERTO SAMPAIO

Notas de Apoio à Disciplina de Sociologia

 

3.2. Alguns factores de mudança

 

 

 

 

UMA REVOLUÇÃO NOS ESPÍRITOS

         E já lá vão 26 anos! Os valores da democracia, que o 25 de Abril se dispôs a restaurar na sociedade portuguesa, parecem ter já sido interiorizados pela esmagadora maioria dos cidadãos. A liberdade de pensamento, a tolerância e a igualdade perante a lei sem sombra de discriminação são, hoje em dia, não só princípios constitucionais, mas também valores inseridos no património colectivo contra os quais é até politicamente incorrecto atentar. Para o bem e para o mal, o confronto político em Portugal deixou de ter o dramatismo de que se revestia nos tempos heróicos da fundação da democracia, em que propostas ferozmente antagónicas se digladiavam nos hemiciclos e nas praças. Os comunistas hoje já não comem criancinhas ao pequeno-almoço, Cunhal é por todos olhado com a veneração que normalmente se dedica aos anciãos, os fascistas já não põem bombas nem destilam veneno nos púlpitos das igrejas.

        Neste mundo normalizado, que espaço sobra então para o romantismo de Abril? Não já através de uma política que traz muito boa gente desencantada, mas mais pelo lado da revolução dos espíritos, que é talvez o mais perene. Porque tão ou mais importante do que a mudança de regime foi a irreversível transformação mental que o 25 de Abril provocou na sociedade portuguesa.

        O país mudou. E muito. E mais depressa do que, à época, muitos ousariam prever. Primeiro, foi a libertação do medo, a possibilidade de falar nos cafés sem ter de olhar para o lado no risco de alguma palavra subversiva cair nalgum ouvido persecutório. Depois, mudaram o quotidiano, os costumes, a visão do mundo. Num impulso irresistível. A autoridade deixou de se apresentar como um fim em si, as pessoas habituaram-se a pensar pela sua cabeça e a contestar o que vinha de cima; os trabalhadores passaram a reivindicar em vez de se renderem a leis inelutáveis; o país não mais ficou fechado em si próprio e na nostalgia de glórias passadas, abriu‑se ao mundo, a informação passou a circular com outro vigor; a mulher conquistou o seu lugar na sociedade, libertando‑se de papéis seculares e determinismos familiares. O país mudou. E se hoje podemos retirar da nossa condição de cidadania algum conteúdo emancipador, ao 25 de Abril o devemos.

 Nuno Corvacho in  Público, 25 Abril 2000

 

A semântica pós-moderna politicamente correcta

ou Como é belo o socialismo em Portugal

Para uma certa esquerda norte-americana dos anos 60 ficava mal chamar negros aos negros e índios aos índios. Passaram a "afro-americanos" e "nativos americanos". Assim começou a moda do politicamente correcto.

Em Portugal, a revolução semântica iniciou-se há alguns anos, pela promoção das "criadas de servir" a "empregadas domésticas" (actualmente auxiliares de apoio doméstico) e dos "empregados" (do comércio e serviços) a "colaboradores". Lentamente estabeleceu-se o novo léxico das profissões consideradas menores: os carteiros passaram a técnicos de distribuição postal, os caixeiros viajantes a técnicos de vendas, as meninas dos correios a técnicas de exploração postal, os jardineiros a técnicos de manutenção de espaços verdes, os varredores a técnicos de higienização urbana, os estivadores a técnicos de manipulação e deslocação de cargas e descargas, etc. Aboliram-se os contínuos. Passaram a auxiliares administrativos. Que, no caso particular das escolas e hospitais, se chamam auxiliares de acção escolar e de acção médica. Ou técnicos de apoio geral (na administração postal).

A revolução linguística invadiu o nosso quotidiano. O nível zero corresponde ao rés-do-chão e a cave ao nível menos um. O ruído chama-se poluição sonora e os lixos, resíduos urbanos. As cabines telefónicas, os bancos de jardim, os marcos do correio e os postes de iluminação, apesar de fixos, são "mobiliário urbano". Nos autocarros deixámos de picar bilhetes. Validamos títulos de transporte, ou seja, obliteramos. Nesta altura a companhia Carris inventou um novo significado para o verbo "obliterar" e o novíssimo substantivo "obliterador", no caso a máquina que pica os bilhetes. Proibido fumar é, na semântica da aviação comercial, "voo azul"; e na linguagem particularíssima da TAP, voo cancelado corresponde a "ligeiro atraso à partida". Ah, também deixou de haver regiões atrasadas. O Alentejo é uma zona de desenvolvimento sustentado e o Casal Ventoso, uma área urbana sensível aos grupos populacionais vulneráveis a condutas alternativas. Na economia deixou de haver falências. Há empresas com insustentabilidade financeira. Os prejuízos são crescimentos negativos. A Bolsa de Lisboa não está de rastos. Acontece que o período transitório de reajustamento económico levou a uma desaceleração temporária do mercado de capitais. Acabaram-se os despedimentos. Há ajustamento de efectivos com racionalização e optimização de recursos humanos. Obviamente também deixou de haver desempregados. Existem cidadãos à procura de emprego, que a partir da faixa etária dos 45 entram em pré‑reforma antecipada. E pobre é um indivíduo de recursos económicos sensíveis, medindo-se o limiar da pobreza pelo número de cidadãos desprovidos de telemóvel. Atenção. Não estou a exagerar. Quando muito sobredimensiono. E há que atribuir novos significantes às realidades particularmente desagradáveis. Uma prisão é um centro de detenção (ou de reinserção social, no caso dos jovens). Um asilo de velhinhos é uma unidade geriátrica. Com elevada taxa de processos terminais, isto é, moribundos. Baralho-me ainda um pouco. Demoro mais do que o desejável a descodificar que estrutura familiar monoparental quer dizer mãe solteira. Tenho a tendência de confundir aluno de desenvolvimento instável (cábula) com criança disfuncional hiperactiva (irrequieta). E que o cidadão de estrutura diferenciada (anão) é diferente do cidadão de mobilidade reduzida (coxo). Fica feio chamar burro a alguém. Deve dizer-se cerebralmente diferente. E entro aqui na minha área profissional.

Há já alguns anos que deixou de haver doentes. Existem utentes. Alguns dos quais portadores de doenças de evolução prolongada (crónicos); que no caso da psiquiatria se chamam pessoas com incapacidade psicossocial. Os serviços de urgência serão reestruturados. Passarão a chamar-se de "emergências". Ainda "pouco sensibilizados às necessidades tangíveis", ou seja, caóticos; aí os técnicos de saúde "põem em acção as suas competências mobilizadoras", isto é, desenrascam. No léxico sanitarista (e continuo a citar documentos oficiais, juro), o "plano nacional de saúde oral" é desconhecer que não há dentistas nos serviços públicos; "programa de saúde reprodutiva" é sinónimo de consultas de planeamento familiar e "aumentar a cura dos casos de baciloscopia" quer dizer tratar a tuberculose. As listas de espera traduzem a cobertura médica universal, e a empresa privada que explora com lucros o Hospital da Cruz Vermelha denomina-se "prestador privado sem fins lucrativos". Ceder aos "lobbies" (médicos, da indústria, das farmácias, etc.) chama-se "criar alianças estratégicas estáveis". Naturalmente "fazer mudanças estruturais" significa manter tudo na mesma. "Crescimento negativo imponderável" quer dizer "para o ano temos novo buraco". A tapar com mais um orçamento suplementar rectificativo. Levando "ao alargamento da taxa de incidência fiscal, como quem diz, aumentando os impostos ...

... e tendo em conta a existência de um primeiro‑ministro virtual, concluo como é belo o socialismo em Portugal.

Ricardo França Jardim in Pública n.º 186, 19 Dezembro 1999

 

Transformação das Famílias é a Principal Mudança da Década

O Portugal do início do novo milénio é um país diferente daquele dos anos 90. Numa década, o país litoralizou-se, tornou-se um destino de imigração e voltou-se economicamente para os serviços. A população nacional estabilizou — são os fluxos migratórios que asseguram um ligeiro crescimento dos residentes —, envelheceu, passou a viver mais só e em famílias mais pequenas. Aumentou o seu nível de escolaridade e o número de licenciados.

Mas se, em termos sociais, o país acompanhou as tendências europeias, nestes últimos dez anos, o acréscimo do Produto Interno Bruto (PIB), que cresceu a uma média anual de 3,5 por cento, acabou por quase não influenciar a qualidade de vida. Portugal tornou-se um país diferente mas pouco mudou: famílias endividadas quase ao limite do total dos rendimentos disponíveis começaram a ir jantar fora com amigos mais vezes e compraram telemóvel, mas continuaram a gastar a maior parte do seu orçamento com a habitação e alimentação, sem conseguir juntar dinheiro em poupanças.

O "Retrato Social" de Portugal na década de 90, ontem divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) revela, então, uma série de transformações significativas que, numa década, mudaram Portugal mas não tornaram o país radicalmente diferente. Alguns dos problemas persistem, apesar de esforços evidentes para os melhorar. Por exemplo, o aumento exponencial do número de indivíduos com habilitações escolares e profissionais não contrariou o facto de que a grande maioria dos empregos continua a não exigir qualificações.

Apesar das mulheres terem entrado em força no ensino superior e no mercado de trabalho, continuam a ser mais mal remuneradas do que os homens e mantêm as responsabilidades de gestão das tarefas familiares. A democratização do crédito bancário não mexeu com os hábitos de consumo da maioria da população — apenas a tornou mais endividada e mais pessimista em relação à melhoria futura da sua situação económica.

As novas famílias

É no âmbito social que mais se notam as diferenças do país. Uma das principais mudanças tem a ver com a nupcialidade e a conjugalidade. Nota o INE que "o recuo das taxas de nupcialidade e dos casamentos na igreja, a popularidade crescente das uniões de facto e dos casamentos com co‑residência prévia dos noivos ou com filhos anteriores à celebração (...) constituem sinais da emergência de novos valores sobre a conjugalidade, agora representada como um compromisso afectivo e privado, construído a dois e ao serviço da felicidade individual". Ao mesmo tempo que aumenta o grau de realização matrimonial, diminui o espaço da terceira idade na vida da população activa: os idosos vivem em famílias unipessoais.

Se no campo dos afectos, as tendências parecem indiferentes à "condição social" dos indivíduos, há uma série de indicadores de consumo e bem-estar que continuam a demonstrar as profundas diferenças em termos de qualidade de vida dos portugueses. Os agregados liderados por um licenciado têm rendimentos cinco vezes superiores àqueles em que não existe qualificação superior. O acesso a equipamentos de ponta, como computadores, permanece restrito às famílias de maior rendimento e grupos altamente escolarizados e os hábitos culturais da maior parte da população resumem-se a dizer que gostam de ir ao cinema. A quebrar esta barreira apenas a taxa de incidência de telemóveis: a densidade telefónica móvel em Portugal está claramente acima da média europeia.

Em termos económicos, registou-se um desequilíbrio na absorção da mão de obra qualificada — o aumento da escolaridade veio acentuar um fosso entre jovens com habilitações e trabalhadores de escolarização rudimentar — pelo mercado de trabalho: cerca de 50 por cento do fluxo anual de novos licenciados acabou a trabalhar no sector público.

RITA SIZA in Jornal Público, 13 Setembro 2003

http://jornal.publico.pt/2003/09/13/Sociedade/S40.html

 

Subcultura

O conceito de subcultura implica, pois, a compreensão de que nenhuma sociedade produz uma cultura que constitua um sistema homogéneo de significados, valores, normas, etc., aceite passivamente por todos os indivíduos e tornando-os a todos numa massa indiferenciada, mas, antes, que qualquer sociedade, sendo estratificada, produz também uma estratificação ao nível cultural. Por outras palavras, sendo a cultura um elemento de coesão social que une os diversos actores sociais, ela produz também elementos de disjunção, visíveis na constituição de subculturas diferenciadas, que resultam, simultaneamente, das diferentes posições ocupadas pelos actores sociais no seio dessa sociedade e da forma diferenciada como estes se apropriam dos diversos elementos culturais. No seio de qualquer sociedade complexa e estratificada encontramos, portanto, diversas culturas, que se desenvolvem no seio do sistema de valores dominante. [...] É assim que, por exemplo, se entende o que se convencionou chamar "cultura juvenil" como uma subcultura face ao sistema cultural dominante (o dos adultos), incluindo elementos da cultura de classe dos diversos grupos juvenis, mas também alguns elementos próprios das faixas etárias e dos modos de vida que os caracterizam e os distinguem dos seus pais. [...] Todavia, a "cultura juvenil", podendo caracterizar-se pela sua "rebeldia" face ao sistema cultural dominante, não se constitui como uma forma articulada de oposição a esse sistema, consistindo, antes, numa extensão do mesmo. É neste sentido que Parkin (1971) refere que as culturas daqueles que se encontram numa posição de subordinação não são alternativas aos sistemas de valores dominantes, mas decorrem de "negociações" obtidas face aos mesmos. Existem, todavia, situações em que determinada subcultura se pode constituir como oposição ao sistema dominante - o caso mais evidente é o da sua contribuição para o aparecimento dos movimentos de contracultura -, mas, geralmente, e mesmo nesses casos, acabam por ser assimiladas e contidas dentro dele.

Os elementos mais visíveis e distintivos de uma subcultura são as formas de vestir dos seus "membros", os acessórios e artefactos usados, os modos de expressão, a postura, o modo como usam o vestuário e os artefactos e, eventualmente, o "jargão", isto é, o vocabulário específico que utilizam e o modo como o usam (Brake, 1993: 11-12), que não só lhes permite distinguirem-se dos "outros", identificando-se socialmente perante eles, como também fornecem um importante elemento de auto-identificação.

Ana Brandão — Subcultura. In Dicionário de Sociologia, Porto: Porto Editora, 2002.

 

Contracultura

Popularizou-se nos anos 60 do século XX, nomeadamente com a formulação por estudantes e intelectuais radicais de ideais que se opunham aos valores e padrões de comportamento convencionalmente aceites, bem como aos grupos que os defendiam e à cultura dominante, expressa, nomeadamente, no capitalismo e no militarismo. Os grupos de contracultura de então, de que o movimento hippie é um exemplo paradigmático, contrapunham àquilo que identificaram como valores materialistas e preconceituosos o espiritualismo, o prazer e a tolerância.
O surgimento do grupo contracultural pode ter por base a partilha de ideias e interesses entre as pessoas que o compõem. Os grupos de contracultura podem também ter na sua origem o sentimento de isolamento daqueles que passam a constituí-lo, como é o caso dos indivíduos que, em razão das suas ideias, se recusam a viver integrados na sociedade dominante e se auto-excluem, formando grupos onde podem exprimir livremente as suas práticas não conformes com as da maioria (por exemplo, uso de drogas, sexo livre, educação alternativa dos filhos). Finalmente, o grupo contracultural pode surgir no seio de um conjunto social que se considera ameaçado culturalmente.

A sociedade ocidental tem assistido desde os anos 60 do século XX ao aparecimento e desenvolvimento de numerosos movimentos de contracultura, como foi o caso do movimento ecologista.

Usualmente, diz-se que a contracultura se dissolveu nos anos 70, mas expressões suas continuam a surgir em manifestações como concertos e outras iniciativas culturais, de que são exemplo os fanzines.

contracultura. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003. [Consult. 2003-05-18].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/E1.jsp?id=25731>.

 

Globalização

Entendemos por globalização um movimento internacional, muito dinâmico, que afecta todos os países do mundo e que se caracteriza por uma crescente liberalização do comércio e dos fluxos de capital e por uma crescente integração a nível mundial dos mercados económicos: trabalho, produção de todos os tipos de bens e serviços, tecnologia e capitais.

Embora o termo seja de uso comum, é relativamente novo, ao ponto de, no início do novo século, ainda não figurar em muitos dicionários. Em diversos meios, defende-se o termo mundialização como sinónimo de globalização, embora seja claramente este último que se está a impor.

Este processo de globalização dos mercados, para além de uma grande projecção, adquiriu também uma forte carga emotiva: para uma parte importante da sociedade, trata-se de um processo económico altamente benéfico, em especial para os países e classes sociais mais desfavorecidos, por ser fulcral para o desenvolvimento e democratização do mundo. Além disso, os seus partidários sustentam que é inevitável ou irreversível. Pelo contrário, para outra parte importante da sociedade, constitui um processo repudiável, porque aumenta a desigualdade entre os povos, ameaça o emprego e levanta obstáculos ao progresso social.

Em qualquer caso, parece claro que a globalização é já um processo irreversível, consequência simultaneamente da actual tecnologia e da grande facilidade de comunicação que hoje existe, o que permite contactos simples com qualquer ponto do planeta e nos transforma em cidadãos de um único país: a Terra. Portanto, assistimos, com a globalização, ao nascimento de uma nova civilização.

No seu aspecto mais elementar, a globalização prolonga para além das fronteiras nacionais as mesmas forças que, durante séculos, agiram em todos os níveis da actividade económica. Primeiro, os mercados foram rurais, depois, passaram a ser à escala do país e agora são - de uma forma crescente - mundiais.

Embora inicialmente a globalização se refira aos processos económicos, é inevitável que, progressivamente, afecte toda a actividade humana. Observam-se nela quatro características básicas: 1) A sua extensão: as redes são mundiais. 2) A sua intensidade: a interligação é rápida e mundial. 3) A sua velocidade: a mudança é universal e cada vez mais rápida. 4) O seu impacte: é mundial, dado que as interligações são mundiais.

A globalização suscita um debate intelectual muito importante à escala planetária, centrado nas seguintes questões:

É positiva para a humanidade?

É questionável? Por quem?

É «americanização»?

Que países beneficia mais?

Só pode basear-se na filosofia do mercado e no liberalismo? Dará origem a uma luta de civilizações? Está a acontecer realmente?

Produz convergências? Está a surgir uma verdadeira cultura global?

Põe em questão a autoridade dos Estados?

A «globalidade» será algo diferente da «modernidade»?

Como referimos de início, no debate económico-político a que assistimos a nível mundial, as questões básicas enfrentadas são as seguintes:

  1. A liberalização do comércio e dos fluxos de capitais são suficientes para se intensificar o crescimento económico a nível mundial.
  2. A liberalização e a globalização pioram a distribuição do rendimento e da riqueza e conduzem ao empobrecimento e à marginalização de grandes camadas da população, pelo que é necessário regular os mercados.

A maior parte das pessoas de todo o mundo que se preocupam com estes temas sentem isso de uma forma muito apaixonada. Quase não existem neutros ou indiferentes: ou apoiam o processo da globalização, ou se lhe opõem muito violentamente. Para umas, o processo de globalização constitui um processo histórico inexorável, enquanto para outras é, no mínimo, uma alternativa política discutível.

Uma boa parte das críticas provém do facto de a globalização originar ruma importante deslocalização dos mercados tradicionais e internos, o que se conhece como a «desintegração» internacional da produção. Um exemplo muito utilizado a este respeito é a boneca «Barbie»: o plástico é produzido no Japão, o cabelo em Taiwan, o vestido na Clima, a montagem é efectuada na Indonésia e na Malásia, e a comercialização em Hong-Kong. Vendem-se, em todo o mundo, duas destas bonecas por segundo, o que representa um valor de cerca de 1500 milhões de euros por ano.

De qualquer modo, a globalização não representa o estádio final de uma mudança histórica, tratando-se «apenas» de um processo económico.

As chaves necessárias para que a globalização tenha êxito económico são: livre acesso aos mercados do mundo e à informação, protecção da propriedade (física e intelectual), liberdade de associação e de expressão, Governos com suficiente legitimidade social, populações com um certo nível de educação e formação, uma política baseada em normas democráticas, empresas que pensem à escala internacional.

O grande problema reside no facto de, embora aceitando os benefícios da globalização, ser difícil chegar a acordo quanto à partilha desses benefícios. Isso é destacado muito bem por Michel Camdessus (director-geral do FMI em 1987-99): «A globalização, indubitavelmente, multiplica os recursos e aumenta a produção mundial, criando ao mesmo tempo um fantástico reservatório dos capitais do mundo, tornando-os acessíveis a todas as pessoas ou empresas solventes, mas, concomitantemente, implicou um aumento das desigualdades.» Estes factos foram aceites pelos maiores defensores da globalização.

Stanley Fischer sustenta que nem todas as críticas à globalização devem ser vistas como proteccionistas ou isolacionistas, pois muitas vezes não são mais do que sugestões para a tornar melhor. Pelo seu lado, Alan Greenspan (presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos) afirma que, quando o crescimento abranda, como está a acontecer, os sentimentos relativamente aos benefícios da globalização mudam.

Por tudo isto, é possível que o processo de globalização seja positivo para a economia mundial, mas, ao mesmo tempo, é necessário também fazer um esforço muito maior para reduzir os efeitos negativos que implica para determinados países ou grupos de indivíduos. Este aspecto é bem resumido por John Capine, da «Goldman Sachs»: «O capitalismo global não só tem de ter uma mão invisível, como precisa de um coração visível.»  

Grande Dicionário Enciclopédico Ediclube, Apêndice 2002, pp. 115-117.

 

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