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2.1. O conceito sociológico de cultura
«O conceito de cultura, tal como o de sociedade, é uma
das noções mais amplamente usadas em Sociologia. A cultura consiste nos valores
de um dado grupo de pessoas, nas normas que seguem e nos bens
materiais que criam. Os valores são ideias abstractas, enquanto as normas são
princípios definidos ou regras que se espera que o povo cumpra. As normas
representam o «permitido» e o «interdito» da vida social. Assim, a monogamia
– ser fiel a um único parceiro matrimonial – é um valor proeminente na
maioria das sociedades ocidentais. Em muitas outras culturas, uma pessoa é
autorizada a ter várias esposas ou esposos simultaneamente. As normas de
comportamento no casamento incluem, por exemplo, como se espera que os esposos
se comportem com os seus parentes por afinidade. Em algumas sociedades, o marido
ou a mulher devem estabelecer uma relação próxima com os seus parentes por
afinidade; noutras, espera-se que se mantenham nítidas distâncias entre eles.
Quando usamos o termo, na conversa
quotidiana comum, pensamos muitas vezes na «cultura» como equivalente às «coisas
mais elevadas do espírito» – arte, literatura, música e pintura. Os sociólogos
incluem no conceito estas actividades, mas também muito mais. A cultura
refere-se aos modos de vida dos membros de uma sociedade, ou de grupos dessa
sociedade. Inclui a forma como se vestem, os costumes de casamento e de vida
familiar, as formas de trabalho, as cerimónias religiosas e as ocupações dos
tempos livres. Abrange também os bens que criam e que se tornam portadores de
sentido para eles – arcos e flechas, arados, fábricas e máquinas,
computadores, livros, habitações.
A «cultura» pode ser distinguida
conceptualmente da «sociedade», mas há conexões muito estreitas entre estas
noções. Uma sociedade é um sistema de inter-relações que ligam os
indivíduos em conjunto. Nenhuma cultura pode existir sem uma sociedade. Mas,
igualmente, nenhuma sociedade existe sem cultura. Sem cultura, não seríamos de
modo algum «humanos», no sentido em que normalmente usamos este termo. Não
teríamos uma língua em que nos expressássemos, nem o sentido da autoconsciência,
e a nossa capacidade de pensar ou raciocinar seria severamente limitada [...].
O principal tema deste capítulo e
do próximo é, de facto, o da relação entre a herança biológica e a herança
cultural da humanidade. As questões relevantes são: o que distingue os seres
humanos dos animais? De onde provêm as nossas características distintivamente
«humanas»? Qual a natureza da natureza humana? Estas questões são cruciais
para a Sociologia, porque são as bases de todo o seu campo de estudo. Para lhes
responder, devemos analisar tanto o que os humanos têm em comum como as diferenças
entre as diversas culturas.
As variações culturais entre seres humanos estão ligadas a diferentes
tipos de sociedade [...].»
A Giddens – Sociologia, FCG, pp.46-47
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