|
Se pensarmos nas acções humanas,
imediatamente descobrimos algumas diferenças notáveis entre elas e os
outros acontecimentos do mundo natural. Primeiramente, é tentador pensar
que tipos de acções ou de comportamento se podem identificar com tipos
de movimentos corporais. Mas isso é obviamente errado. Por exemplo, um e
o mesmo conjunto de movimentos corporais poderá constituir uma dança, ou
uma sinalização, ou um exercício ou uma testagem dos próprios músculos,
ou então nada do que foi dito. Além disso, assim como um e o mesmo
conjunto de tipos de movimentos físicos pode constituir tipos de acções
completamente diversos, assim também um tipo de acção pode ser realizado
por um número de tipos grandemente diferente de movimentos físicos.
Pense-se, por exemplo, no envio de uma mensagem a um amigo. Podemos
escrevê-la numa folha de papel. Podemos escrevê-la à máquina. Podemos
enviá-la por um mensageiro ou por telegrama. Ou então, podemos falar-lhe
pelo telefone. E, efectivamente, cada um dos modos de enviar a mesma
mensagem poderia realizar-se com uma variedade de movimentos físicos.
Poderíamos escrever a nota com a mão esquerda ou a mão direita, com os
dedos dos pés ou até, segurando a caneta entre os dentes. Além disso,
uma outra característica singular das acções que as faz diversas dos
acontecimentos em geral, é que as acções parecem ter preferido
descrições. Se vou passear para Hyde Park, há muitas outras coisas que
acontecem durante o meu passeio, mas as suas descrições não descrevem as
minhas acções intencionais, porque, ao agir, aquilo que eu faço depende
em grande parte daquilo que penso que estou a fazer. Assim, por exemplo,
estou também a mover-me na direcção geral da Patagónia, sacudindo o
cabelo da minha cabeça para cima e para baixo, gastando os sapatos e
deslocando inúmeros moléculas de ar. No entanto, nenhuma destas outras
descrições parece atingir aquilo que é essencial a propósito da acção,
acerca do que a acção é.
Uma terceira
característica relacionada das acções é que uma pessoa está numa posição
especial para saber o que está a fazer. Não tem de se observar a si
mesmo ou encetar uma investigação para ver que acção está a realizar.
Ou, pelo menos, tenta realizar. Assim, se alguém me disser: «Está a
tentar ir para Hyde Park?», ou «Está a esforçar-se por se aproximar da
Patagónia?», não tenho hesitação em fornecer uma resposta, mesmo que os
movimentos físicos que faço possam ser apropriados para qualquer
resposta.
[...]
Resumindo o que disse até agora:
existem mais tipos de acção do que tipos de movimentos físicos, as
acções preferiram as descrições, as pessoas sabem o que fazem sem
observação, e os princípios pelos quais identificamos e explicamos a
acção são também parte das acções, isto é, são, em parte, constitutivos
das acções.
SEARLE, John (1987).
Mente, cérebro e ciência. Lisboa: Edições 70,
páginas 71-74.
|